
Paulo
é um ponderado estudante médico na universidade do Amazonas,
na rica metrópole de Manaus, estado do Amazonas. Ele estava me dizendo
como foi seu estágio rural em uma pequena cidade da selva chamada
Envira. Ela é tão distante de Manaus, que uma viagem por
rio leva 18 dias, navegando nos 2.000 km de suas curvas ociosas.
E tudo o isto sem mesmo deixar o estado! Há somente três
médicos na vila de 35.000 almas, e a atenção à
saúde é oferecida em grande parte por agentes missionário,
com pouco treinamento médico. A vila é muito pobre,
com o 90% de seus habitantes que ganham salários mensais de R$ 200
ou menos. Nenhuma novodade nisso: mais do que 80% são
analfabetos ou estudaram menos de oito anos. A maioria são
índios ou descendem deles.
" Você não pode abrir sua boca para por muito tempo nesta parte da selva ", ele me disse, sorrindo. "Sua boca fica cheia de moscas pretas, que ficam em sua volta em nuvens espessas, o tempo todo". Ferozes formigas rasyejam por toda a parte e a temperatura é quase 39 graus o ano todo, com 95% de umidade. "É como uma sauna", diz Paulo, e "em algumas regiões da floresta você tem que cobrir sua pele exposta com o óleo grosso, que é a única coisa que detém estas moscas de sugá-lo".
Ele está convicto de que a floresta tropical densa, escura e gotejante que circunda a cidade é inadequada para os seres humanos; entretanto, ela é habitada por seres humanos. Paradoxalmente, ele está pensando em retornar a Envira quando se formar. "Eu gostei da experiência em Envira. Você fica emocionalmente ligado às pessoas que são gentis e hospitaleiras e compartilha o sofrimento delas. Eu e meu colega estávamos sozinhos lá e as coisas que tivemos que fazer nos prepararam enormement para a profissão que escolhemos e que adoramos."
Assim como seus outros sessenta colegas do curso de medicina, ele participava de um programa com mais de dez anos de duração e de grande sucesso, implementado pela Faculdade de Medicina para ensinar a seus formandos como trabalhar nos ambientes rurais dessa parte especial do Brasil. Onze municípios distantes e atrasados recebem dois estudantes cada um, por um período de dois meses. Sete desses municípios eram vizinhos de tribos indígenas quase intocadas.
Os custos de transporte e estada são pagos pelo governo municipal, e os estudantes devem visitar comunidades rurais isolada, observar e comprender o seu modo de vida e seus problemas de saúde, registrar a incidência de doenças para fins epidemiológicos e ajudar a promover medidas siples de prevenção tais como vacinação, higiene, cuidados de pré-natal e pediátricos etc. Eles também ensinam muitas coisas aos habitantes, por exemplo a prevenção das cáries, a amamentação materna, como evitar verminoses e como cuidar das fontes de água e como tratar o lixo. Para isso, muitas vezes utilizaram a simples estação de rádio que funciona em Envira.
Pessoas acometidas de doenças graves que necessitam de tratamento especializado precisam ser removidas para a capital ou para o hospital mais próximo, o que significa viajar durante dois a cinco dias em uma canoa a remo desde seus palhoças à beira do rio, em seguida uma viagem terrível em pequenos aviões (quando o doente tem dinheiro para tanto) sobre a selva hostil e proibida ou às vezes a morte, quando o dinheiro não dá.
Em dezenas de pequenas vilas e povoados como Envira, a tecnologia é apenas um sonho distante, e muitas pessoas nas zonas rurais vivem da mesma maneira que seus antepassados, índios com uma cultura neolítica.
Ao chegar no posto médico com uma dor alucinante e uma fratura infectada, eld foi examinado por Paulo que nunca havia tivo experiência direta em tratar uma trauma tão complexo durante seu curso de medicina.. A morte estava próxima e Paulo tinha que fazer alguma coisa e agir rápido. Mas fazer o quê? Paulo foi capaz de encontrar um livro que havia trazido consigo para estudar para o exame de Residência Médica e pode telefonar a um de seus professores em Manaus (bem pelo menos Envira tem telefone público com conexão por satélite). Orientando Paulo pelo telefone durante toda a cirugia e com ajuda do outro estudante de medicina e duas enfermeiras o professor foi capaz de comandar uma cirurgia completa e o curativo da ferida! A vida do trabalhador rural foi salva.
Em outro vilarejo, os estudantes de medicina puderam salvar a vida de uma mãe índia de apenas 15 anos de idade e seu bebê, realizando pela primeira vez em suas vidas, uma cesárea. Eles gostaram tanto que repetiram o feito cinco vezes, tornando-se os famosos e adorados "doutores" do vilarejo.
Uma história de arrepiar, diria você? Relatos como esse são bastante comuns no programa de residência rural.
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